
Vou falar dela, esta mesmo: a indústria brasileira de videogames.
Eu não trabalho como jornalista de games há muito tempo (comecei o Audiogame em agosto do ano passado e escrevi meu primeiro freela para uma revista há pouco menos de um ano), mas eu nasci e me criei no Brasil, jogando videogames. Acompanho a indústria de games desde que era muito pequeno e fico feliz de tê-la visto crescer comigo.
Minha primeira experiência com videogames foi quando nasci, nasci em Porto Alegre e passei os meus primeiros meses de vida morando com muita gente, entre eles o meu primo, que tinha um Dactar. Não jogava, mas o assistia jogar e a empolgação era tão grande para mim quanto para ele e assim foi, durante meu primeiro ano de vida cheguei a mexer no joystick e tentar fazer algo de bom acontecer, mas não sei se fiz algo além de matar o carinha do PitFall e bater o carro em Enduro.
Assim foi até que, quando eu tinha dois anos, quase três, no comecinho de 1993. Minha mãe foi aos Estados Unidos e me levou junto (ai se não tivesse) e lá compramos um presente para meu primo: um Sega Genesis. O console destronou o Dactar no quarto do meu primo, mesmo só vindo com Ms. PacMan (não me lembro se o jogo veio junto com o Genesis ou se minha mãe o escolheu). Jogávamos muito o jogo da mulher obesa com doença de pele e cheia de maquiagem de puta/perua e logo começamos a alugar jogos na maravilhosa Espaço Vídeo e comprar cartuchos no centro.
Nesta época muitas crianças, como eu, não sabiam diferenciar um cartucho pirata de um original e mesmo que soubesse não entenderia todas as diferenças que há entre comprar um jogo original e um pirata, para ela e para as empresas de games. Isto é um, talvez, importante para se entender porque há, cada vez mais compradores de jogos originais aqui no Brasil. Acho que o fato dos jogadores crescerem e amadurecerem tem muito a ver com a consciência que se tem hoje, muito distante daqueles dias do cartucho de “cinco pila” e até da, não distante, era do “Play dois“.
Como já morava em São Paulo eu não tinha como continuar jogando o videogame do meu primo o tempo inteiro e nem ir com ele ao fliperama (por mais que meu pai me levasse ao fliper nos fins de semana). Por esta escassez de games na minha vida meus pais me deram, naquele natal, um Super Nintendo da Playtronic (com Super Mario World e Super Mario Paint com o mouse). Também ganhei um teclado naquele natal de 1993, mas bem, a música ficou no segundo lugar no ranking das minhas paixões. (Inclusive há um link no lado direito desta página que leva a uma página onde ponho músicas que faço, dê uma ouvida.)
Agora eu estava 100% armado e perigoso: videogame em casa, videogame na casa do primo (onde passava as férias) e viagens freqüentes ao fliperama do Shopping West Plaza.
Em 1994 eu já tinha jogado Mortal Kombat e sua continuação exaustivamente. Jogava no fliperama, no Genesis do meu primo e no meu SNES. Já havia me apaixonado. Também gostava muito de Street Fighter II, mas algo naquela violência toda me cativava, ainda mais porque eu havia aprendido a apreciá-la em muitos filmes e seriados de ação. É nesta hora que alguém normalmente faz piadas ou se impressiona por uma criança de dois anos ter jogado Mortal Kombat, mas eu fico feliz por ter tido esta oportunidade e não matei ninguém nem nunca agi violentamente por causa de nada que vi ou joguei. A minha opnião é a seguinte: os pais devem decidir o que os filhos jogam e assistem, mas para isso é necessário saber do que se trata, não adianta simplesmente ler um adesivo que diz “Violência. Sangue. Linguagem inapropriada. [14 Anos]” é preciso ver o que há realmente no jogo ou no filme. Depois disso você deve decidir se você consegue criar um indivíduo decente sem privá-lo de fatalities.
Em 1995 o filme do Mortal Kombat saiu. Eu adorei, meu primo e meus amigos também (menos os que foram privados de assistí-lo). Meu primo até tinha a fita, assistíamos o filme várias vezes na mesma semana. Lembrando-me do filme (e assistindo o DVD que tenho) eu não consigo entender como aturávamos algumas coisas ali, mas, por outro lado, eu até compreendo a animação por se ter um filme baseado em um jogo feito seriamente (seriamente para a mente de um garoto). O que salvou 1995 no quesito MK foi Mortal Kombat 3, que era muito legal e logo depois, em 96, veio UMK3 (o melhor Mortal Kombat na minha opinião).
1996 foi o ano em que a febre Playstation começou no Brasil. Era pequena e foi crescendo até estourar em 97, mas no final de 1996 eu consegui um PS1. Estava muito feliz, mas ainda dominavam os jogos piratas e poucos foram os jogos originais que eu (ou qualquer um que eu conhecesse) tinha. Foi um grande boom na indústria em todo o mundo e como aqui a pirataria era o normal ela também cresceu muito, especialmente pelos jogos serem em CD, que são muito mais baratos de se produzir do que cartuchos.
O ano seguinte foi o ano do Nintendo 64. Meu pai decidiu comprar um console para eu jogar na casa dele e comprou um 64 de um amigo que tinha ido aos Estados Unidos. O console veio sem jogo, então sai no mesmo dia (um domingo) atrás de jogos. Podia comprar um só então, na minha pobre ignorância misturada com paixão, comprei Mortal Kombat Trilogy. Você deve estar rindo da minha cara, mas eu estava muito satisfeito com este jogo e durante muitos anos fui comprando e alugando inúmeros jogos que me fizeram realmente respeitar o N64 como uma máquina de jogos.
Em 1998 não fiz muita coisa relacionada a games a não ser jogá-los.
Em julho de 1999 eu estava passando as férias em Porto Alegre (como de costume) e me deparei com uma pilha de Sega Saturns na entrada de uma loja de departamentos e me lembro que eles estavam a preço de banana porque o console já estava morto, o Dreamcast havia saído e nem o Japão ligava mais para o “Arcade em casa” da Sega. Me divirto muito com este Saturn até hoje.
No final de 99 eu finalmente pude parar de clamar por um Dreamcast porque ganhei um naquele natal. Novamente você vai rir de mim porque o jogo que comprei com ele foi Mortal Kombat Gold, para mim era ou isso ou Virtua Fighter 3tb e como nenhum dos dois é perfeito e nunca foram pirateados com perfeição eu nunca me arrependi desta decisão. Infelizmente o leitor deste Dreamcast morreu em 2005 e seus restos mortais foram trocados por outros itens para minha coleção de games, ainda preciso comprar um Dream novo.
No final de 2001 eu consegui um Playstation 2 através de chantagens emocionais aplicadas a um pai que esqueceu de ir a peça de teatro de seu filhinho (e ainda ganhei um par de tênis). De novo você vai rir do jogo que comprei junto ao console: 007: Agent Under Fire. Pois é, não quis Tekken Tag Tournament porque sabia que me enjoaria rápido e a UZ Games não tinha mais GTA 3. Joguei muito AUF e gostava muito dos gráficos do jogo. Usei muitos jogos piratas no meu PS2, tanto quanto no meu Dreamcast (ou até mais), mas já havia uma voz na minha cabeça dizendo “Ei, jogo original é muito louco né?” e eu tive Grand Theft Auto: Vice City original além de 007: AUF.
Em 2004 troquei meu PS2 por um Xbox, não me arrependi, mas senti falta de alguns exclusivos como Virtua Fighter 4, Shinobi, God of War e outros. Ainda era um ávido pirateiro, mas passei a baixar jogos em casa ao invés de sustentar o mercado da pirataria.
Mas, nesta época, comecei a trabalhar em uma loja de jogos piratas como vendedor. Já havia feito muitos bicos em uma loja de CDs piratas de PC e acabei indo parar nesta loja. Eu ainda era a favor da pirataria, mas foi uma ótima experiência para desmistificar o comerciante de produtos piratas e perceber que ele não é o criminoso inescrupoloso como o fazem parecer nem é tão bom e inocente como tenta parecer.
Em maio de 2005 ganhei um Nintendo DS e, mais uma vez, escolhi o pior jogo para se começar: Ridge Racer DS. Ria novamente caro leitor, pelo menos estou entretendo-o. Depois adquiri mais jogos para o sistema e me desfiz de RRDS. Fiquei tentado, por um tempo, a comprar um flash card para poder baixar homebrews e emuladores, mas decidi não fazê-lo porque iria, inevitavelmente, usar jogos piratas. Foi o meu primeiro passo à despiratatização. Já nesta época os pensamentos de anti-pirataria começavam a aparecer nos fóruns de games, mas eram extremamente combatidos pela maioria, que apelava para todo tipo de falácias lógicas e argumentos vagabundos para justificar, para os outros e para si mesma, o uso de jogos falsificados.
Em 2006 vendi meu Xbox e meu Nintendo DS para embarcar numa nova jornada que era um sonho de infância: comprar uma máquina de arcade. Meu amigo Orlando Ortiz, um ávido colecionador, me deu várias dicas sobre onde comprar gabinetes, o que perguntar, etc. Comprei uma placa de Street Fighter II: World Warrior (sim, a primeira versão, onde não se pode jogar com os quatro “chefões”) e logo depois um gabinete usado. Depois adquiri uma placa Sega ST-V Titan japonesa com três jogos: Virtua Fighter Remix, Dynamite Deka (Die Hard Arcade no ocidente) e Golden Axe: The Duel. Alternando entre os cartuchos e placas era possível entreter-me e aos amigos por muitas horas e todos (ainda mais eu) sentiam um calorzinho no coração pela cena de uma máquina de fliperama na casa de um gamer, bem como nos filmes e sonhos de nossa infância.
Em agosto do mesmo ano criei o Audiogame com Pedro Batalha e ai comecei a levar jogos e a indústria muito mais a sério. Ainda não me sentia parte da imprensa dos games, mas já sentia que poderíamos chegar muito longe.
No mês seguinte comprei um Xbox 360 para fazer a cobertura da nova geração para o Audiogame. Com a compra do novo console eu marquei o meu abandono da pirataria. Vê-se hoje que para muitos gamers no Brasil foi este sistema e sua rede online que os tiraram da pirataria.
Em novembro nos enfiamos na redação da Futuro para ver o Wii, que não havia sido lançado ainda. Clima de festa, muita gente, muitas risadas e muita conversa. De uma das conversas surgiu o convite de Rodrigo Guerra (então editor da falecida Super Dicas Playstation), queria que nós fizéssemos uma colaboração para a revista, logo chegou uma pauta no email de cada um e a partir daí comecei a freelar para as revistas da casa.
Passei janeiro de 2007 nos Estados Unidos, fui para um curso de inglês que se mostrou falido e inútil, mas lá estava eu, livre, leve e solto na terra do Tio Sam. Visitei inúmeras lojas que vendem games da qual sempre falamos no Audiogame e pude viver, por um breve mês, a vida de um gamer americano. Aquilo tudo me deixou frustrado com o mercado nacional, mas me fez dar valor à melhor e mais bem desenvolvida parte dele: a imprensa de games.
Em fevereiro fui escalado para fazer o review de Virtua Fighter 5 para o Herói.com.br, fiquei muito feliz, pois sou um fã da série. Fiquei mais feliz ainda quando o grande Fabio Santana, que era um dos editores que ia fazer o review do jogo para a EGM Brasil, me passou esta incumbência. Passei a semana do carnaval inteira jogando, zerei com todos os personagens, evolui meu lutador até um dos mais altos níveis, desbloqueei a Dural e os dois cenários extras. No domingo à noite terminei o review, mas ai, quando o Orlando o viu disse que era para ter ficado com 2000 toques e não 1000. Eu não sabia que era um review de duas páginas (erro de iniciante) e tinha que entregá-lo na segunda de manhã, corri e terminei o texto à uma da manhã. O que me deu mais raiva foi que meu texto original tinha 3500 toques, mas eu já havia os cortado para fazer o review de 1000, hehehehe.
Agora estamos aqui, no final de 2007, com a Microsoft e o Xbox 360 no Brasil, muitos gamers só usam originais, temos mais empresas vindo para o Brasil e eu estou envolvido num projeto muito legal e muito interessante que será revelado em janeiro.
Agora as notinhas sobre o meu cotidiano enquanto escrevia este texto (não recomendado a aqueles que não se interessam):
Pois é, passei esta semana sem postar aqui, mas agora que estou em um avião (novamente) tenho o tempo necessário para me dedicar a uma criação literária que merece seu espaço aqui no webGUS.
Estou indo a Brasília para um casamento. Não queria estar indo, mas fui exaustivamente convencido a ir por multiplas partes.
Antes que você se pergunte: não, não houve nenhum problemas no aeroporto. Cheguei no horário, havia pouca fila (porque estou voando com a minha querida Varig), despachei a minha malinha, mandei ver num sushi e embarquei. O avião está com menos da metade de sua capacidade e o espaço para minhas pernas (e o laptop em que escrevo este texto) é incrível, estou muito satisfeito. Mais vazio que isso só num avião da BRA, heheheheh.
Putz, enquanto escrevia estava com muita sede e lá veio o carrinho com as bebidas, mas sei lá o que houve e eu pedi uma Coca-Cola e recebi uma sopa de legumes num copo… Tô tomando sopa agora.
Agora me bateu uma dúvida: não sei se vou postar isso hoje (sexta-feira, dia nove de novembro) porque não sei se terei um acesso à internet, mas isso não importa muito a você, porque agora eu já postei este texto, por isso você o está lendo.
Agora é sábado ao meio dia e meia e eu acabei de terminar o texto. Acho que vou conseguir postar hoje.
GUS
4 responses so far ↓
Daniel Ferreira // Novembro 21, 2007 at 12:21 am
E eu só fui ler na Quarta de madrugada ;D
Rodolfo Miao // Novembro 30, 2007 at 3:57 pm
Show. Acho que deveria ser publicado em alguma revista especializada em games.
flw.
Mauri // Janeiro 21, 2008 at 7:03 pm
Huahua… realmente a sua história com os videogames foi muito bacana e divertida, me identifiquei pessoalmente em algumas passagens, curti pacas!
Eu queria um arcade de TMNT…
Leonardo // Fevereiro 25, 2008 at 12:52 am
excelente. Vc tem futuro no ramo, e sabe disso.
Espero que continue exactamente assim.
Abraços
Leo
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